Mostrando postagens com marcador Questionamentos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Questionamentos. Mostrar todas as postagens
domingo, 31 de março de 2013
Referência - Laurent Coderre
Dando uma olhada como sempre no excelente livro The Animation Book, encontro uma menção a Laurent Coderre, que ainda não conhecia. Ele, como vários outros gênios da animação mais livre, trabalhava no National Film Board of Canada, e tem produções incríveis, animando diversos materiais. O livro mostra a imagem acima e fala sobre ele no trecho sobre animar diversos materias sob a câmera, e a legenda da imagem era exatamente essa:
"O canadense Laurent Coderre é mostrado trabalhando com pequenas lascas de madeira no seu filme Zikkaron. Veja a simplicidade da estrutura: uma câmera fixa presa acima de uma folha preta fosca."
Me identifico demais com filmes animados tradicionalmente sobre trucas com diversos materiais sobre fundo preto. Pode parecer algo ultra-específico e raro, mas acredite, se você ainda não viu muitos assim, existem demais, é quase uma escola, ou uma linha de trabalho. Apesar de na maioria das vezes eu detestar rótulos e categorias, esta seria uma que eu faria parte com prazer. Mas, enfim, voltando ao Laurent; fiquei muito curioso sobre este seu filme e - nada como os dias de hoje! - ele está disponível para assistir no site do NFB. Assista e veja o que acha:
Incrível não é? Não sei o que é mais impressionante: a fantástica maneira como consegue contar tanto de maneira tão livre e sem as amarras de sempre dos roteiros de sempre, ou impecável animação (tudo flui de forma maravilhosamente linda, extremamente precisa e nada sai do lugar por acaso) ou como ele conseguiu fazer tudo isso junto, há mais de quarenta anos atrás. Quanto mais animo hoje - com câmeras digitais, programas avançadíssimos de captura frame a frame, softwares de correção de cor e edicão, o escambau - mais vejo o quanto esses caras são heróis. Sem as referências deles mesmos pra seguir (ao contrário de nós), com todas as limitações técnicas da época em todos aspectos, apenas seguiam cegamente seus instintos em frente e criavam essas pérolas. O convido a se deleitar comigo em mais algumas obras fantásticas de Mr. Coderre. Em frente! :D
sexta-feira, 15 de junho de 2012
O real espírito de um animador
Há algumas semanas um vídeo me chamou a atenção no youtube. A pequena imagem que aparecia num canto, como vídeo promovido, era a que vemos abaixo; vários doces formando uma forma aparentemente animada que interagia com uma pessoa - uma animação em stop motion, como já dizia no título. Achei interessante e fui assistir.
Confesso que, sinceramente, fiquei meio decepcionado depois de ver. Inúmeras - e gritantes - variações de luz, mudanças bruscas o tempo todo no enquadramento, mudanças no formato das fotos também o tempo todo, e a animação em si, pra falar a verdade, achei muito da fraquinha. Não era possível que uma empresa como essa das balas contratasse alguém que não fizesse a coisa do jeito que deveria ser, como tantas coisas fantásticas nessa linha que vemos por aí. Ainda por cima, não conseguia entender como esse vídeo ainda conseguiu mais de trezentas mil visualizações sendo tão - achava eu - sem graça e tecnicamente fraco, aliás, fraquíssimo. Mas logo logo eu teria que engolir os meus próprios pensamentos quando assistisse, pouco depois, ao vídeo de bastidores do tal comercial:
Fiquei - e ainda estou - de boca aberta. A menina que aparece então no comercial não é uma modelozinha só pra constar - ela é a própria diretora, operadora de câmera, animadora e ainda aparece no filme!! Quantos filmes de animação você já viu que uma pessoa fez sozinha? Certamente vários, talvez muitos. Mas, quantos viu em que a pessoa que faz todas as funções ainda por cima aparece no filme como neste, tendo feito absolutamente tudo sozinha? Eu não me lembro agora de nenhum. Um pobre coitado de um faz-tudo "padrão", se não chama alguém para aparecer, aparece mas pelo menos tem um assistente ou pelo menos um amigo, irmão ou namorada pra acionar a câmera, sem os quais a solução é então não aparecer ou aparecer apenas uma mão sua, por exemplo. Mas a mocinha aí claramente pensou diferente e, na minha humilde visão, leva - assim como o fizeram todos os pioneiros e visionários de tantas áreas - todo o meio, todo o cinema de animação mundial um passo adiante. As precariedades técnicas que eu ingenuamente valorizei tanto se tornam ridículas perto da determinação dela em fazer o que queria, da maneira dela.
Como então que respondendo essas minhas teimosias idiotas em questionar o pouco domínio técnico dela até aí, ela mais recentemente fez outro trabalho, um comercial de maquiagens, tecnicamente superior, tanto fotograficamente como na animação. Mesmo esquema: ela mesmo se fotografava. Ela é tão insanamente genial que nem quis saber se a mão dela aparecia em cena com o disparador da câmera, apenas fez do jeito que imaginava e pronto. Impressione-se como eu vendo abaixo o comercial e os bastidores, no mesmo vídeo:
Mais impressionante ainda. Não tem estúdio? Crie o seu, oras! Use sua própria cama, monte um tripé em cima de pilhas de livros pesadões, ponha todos os elementos que vai usar em volta de você e tchau! Nessas horas tenho vontade de esganar aquelas pessoas nhé nhé nhé que vem dizer "Ah, queria fazer animação mas é muito difícil!... Não tenho equipamento, não tenho equipe, não tenho os materiais, é tudo caro, é tudo complicado... "...Tá certo. Enquanto uns reclamam, outros fazem. E assim caminha a humanidade.
Talvez essa moça não conheça os grandes realizadores do cinema de animação experimental, os pioneiros como Norman McLaren e Oscar Fischinger que trazem a tradição do One Man's Show pra animação, mas tenho certeza de que, conhecendo ou não, ela de fato leva o caminhar da área para novos rumos. Ela mesma se torna uma pioneira fazendo - exatamente como o McLaren e o Fischinger - as coisas da maneira dela e pronto. Faz naturalmente algo que é ainda mais complexo e específico do que muita coisa já consolidada. Não há escola, livro ou outra pessoa que ensine isso a alguém - isso surge em você, se molda nas suas aspirações, desejos e impulsos criativos e, quando você vê, já está fazendo. Ela tem sozinha mais determinação em fazer o seu pequeno filme do que muitas equipes inteiras que fazem trabalhos mega complexos e tecnicamente impecáveis por aí, mas que não têm um pingo de alma, um mínimo de sinceridade - coisa que ela tem, notoriamente, aos montes. O que ela sabe, ela faz e aprimora, o que não sabe, aprende na hora e faz. Simples assim.
E é aí que, mais uma vez, aprendo uma lição que achava já saber: não há limites para quem quer fazer algo. Não para quem pensa em fazer, mas para quem quer fazer. E quem quer fazer algo mesmo nem pensa sobre isso, apenas faz e pronto. Se o trabalho vai ficar bom aos olhos dos outros ou não, é outra história, mas com certeza a coisa tende a ficar melhor e melhor enquanto se faz - tecnicamente melhor, artisticamente fundamentado, instinto mais e mais aguçado e, consequentemente, o reconhecimento e apreciação dos que lhe rodeiam aumenta para mais e melhor. Sempre que alguém vem me perguntar o que se precisa para ser um animador, penso comigo mesmo na hora: "É mesmo né... o que é que se precisa?". Não sei responder. Acho sinceramente que nunca parei pra pensar nisso, e espero, como a nossa amiga acima, nunca parar pra pensar. O negócio é fazer, é ser sincero e meter as caras, botar a mão na massa que as coisas tomarão o seu próprio rumo e corpo ao materializar nossos maiores sonhos, conscientes e inconscientes, e nossa sinceridade ainda atrairá outros pelo caminho, que levarão o meio ainda mais longe. Em frente.
Confesso que, sinceramente, fiquei meio decepcionado depois de ver. Inúmeras - e gritantes - variações de luz, mudanças bruscas o tempo todo no enquadramento, mudanças no formato das fotos também o tempo todo, e a animação em si, pra falar a verdade, achei muito da fraquinha. Não era possível que uma empresa como essa das balas contratasse alguém que não fizesse a coisa do jeito que deveria ser, como tantas coisas fantásticas nessa linha que vemos por aí. Ainda por cima, não conseguia entender como esse vídeo ainda conseguiu mais de trezentas mil visualizações sendo tão - achava eu - sem graça e tecnicamente fraco, aliás, fraquíssimo. Mas logo logo eu teria que engolir os meus próprios pensamentos quando assistisse, pouco depois, ao vídeo de bastidores do tal comercial:
Fiquei - e ainda estou - de boca aberta. A menina que aparece então no comercial não é uma modelozinha só pra constar - ela é a própria diretora, operadora de câmera, animadora e ainda aparece no filme!! Quantos filmes de animação você já viu que uma pessoa fez sozinha? Certamente vários, talvez muitos. Mas, quantos viu em que a pessoa que faz todas as funções ainda por cima aparece no filme como neste, tendo feito absolutamente tudo sozinha? Eu não me lembro agora de nenhum. Um pobre coitado de um faz-tudo "padrão", se não chama alguém para aparecer, aparece mas pelo menos tem um assistente ou pelo menos um amigo, irmão ou namorada pra acionar a câmera, sem os quais a solução é então não aparecer ou aparecer apenas uma mão sua, por exemplo. Mas a mocinha aí claramente pensou diferente e, na minha humilde visão, leva - assim como o fizeram todos os pioneiros e visionários de tantas áreas - todo o meio, todo o cinema de animação mundial um passo adiante. As precariedades técnicas que eu ingenuamente valorizei tanto se tornam ridículas perto da determinação dela em fazer o que queria, da maneira dela.
Como então que respondendo essas minhas teimosias idiotas em questionar o pouco domínio técnico dela até aí, ela mais recentemente fez outro trabalho, um comercial de maquiagens, tecnicamente superior, tanto fotograficamente como na animação. Mesmo esquema: ela mesmo se fotografava. Ela é tão insanamente genial que nem quis saber se a mão dela aparecia em cena com o disparador da câmera, apenas fez do jeito que imaginava e pronto. Impressione-se como eu vendo abaixo o comercial e os bastidores, no mesmo vídeo:
Mais impressionante ainda. Não tem estúdio? Crie o seu, oras! Use sua própria cama, monte um tripé em cima de pilhas de livros pesadões, ponha todos os elementos que vai usar em volta de você e tchau! Nessas horas tenho vontade de esganar aquelas pessoas nhé nhé nhé que vem dizer "Ah, queria fazer animação mas é muito difícil!... Não tenho equipamento, não tenho equipe, não tenho os materiais, é tudo caro, é tudo complicado... "...Tá certo. Enquanto uns reclamam, outros fazem. E assim caminha a humanidade.
Talvez essa moça não conheça os grandes realizadores do cinema de animação experimental, os pioneiros como Norman McLaren e Oscar Fischinger que trazem a tradição do One Man's Show pra animação, mas tenho certeza de que, conhecendo ou não, ela de fato leva o caminhar da área para novos rumos. Ela mesma se torna uma pioneira fazendo - exatamente como o McLaren e o Fischinger - as coisas da maneira dela e pronto. Faz naturalmente algo que é ainda mais complexo e específico do que muita coisa já consolidada. Não há escola, livro ou outra pessoa que ensine isso a alguém - isso surge em você, se molda nas suas aspirações, desejos e impulsos criativos e, quando você vê, já está fazendo. Ela tem sozinha mais determinação em fazer o seu pequeno filme do que muitas equipes inteiras que fazem trabalhos mega complexos e tecnicamente impecáveis por aí, mas que não têm um pingo de alma, um mínimo de sinceridade - coisa que ela tem, notoriamente, aos montes. O que ela sabe, ela faz e aprimora, o que não sabe, aprende na hora e faz. Simples assim.
E é aí que, mais uma vez, aprendo uma lição que achava já saber: não há limites para quem quer fazer algo. Não para quem pensa em fazer, mas para quem quer fazer. E quem quer fazer algo mesmo nem pensa sobre isso, apenas faz e pronto. Se o trabalho vai ficar bom aos olhos dos outros ou não, é outra história, mas com certeza a coisa tende a ficar melhor e melhor enquanto se faz - tecnicamente melhor, artisticamente fundamentado, instinto mais e mais aguçado e, consequentemente, o reconhecimento e apreciação dos que lhe rodeiam aumenta para mais e melhor. Sempre que alguém vem me perguntar o que se precisa para ser um animador, penso comigo mesmo na hora: "É mesmo né... o que é que se precisa?". Não sei responder. Acho sinceramente que nunca parei pra pensar nisso, e espero, como a nossa amiga acima, nunca parar pra pensar. O negócio é fazer, é ser sincero e meter as caras, botar a mão na massa que as coisas tomarão o seu próprio rumo e corpo ao materializar nossos maiores sonhos, conscientes e inconscientes, e nossa sinceridade ainda atrairá outros pelo caminho, que levarão o meio ainda mais longe. Em frente.
quarta-feira, 11 de abril de 2012
Música: Underscore Orkestra e o Creative Commons
Abro uma nova linha aqui no blog, falando um pouco de música - uma de minhas grandes paixões - e como a relaciono com tudo o que faço. Então, não conseguir pensar neste momento em nada melhor do que falar da sensacional banda Underscore Orkestra, cujas músicas compartilho acima - todas podem ser ouvidas, baixadas, compartilhadas livremente e até utilizadas em trabalhos derivados (tudo sem fins lucrativos, claro), pois detém esta licença no CC - Creative Commons, e este é um dos motivos pelo qual falo delas.
Conheci o genial trabalho deste pessoal procurando por músicas de uso livre, para poder utilizar nos meus filmes. Encontrei esse álbum completo deles no Free Music Archive, site muito bacana por sinal. Assim que vi, achei interessante e fui ouvindo-as. Qual não foi minha agradável surpresa - um estilo louco e alucinado dos Balcãs que é meio jazz, big band de swing, rock, pop, folk e mais um bocado de coisas que se puder imaginar, tudo com esse tempero do leste europeu . Simplesmente fantástico, os caras tem uma energia que não vemos muito por aí. Desde que baixei, há mais de um ano, não canso de ouvir, repetidamente.
O próximo passo: fazer então meus curtas utilizando essas músicas. Vou contatar a banda no site deles para ver se dá mesmo pra usar as músicas em filmes como pretendo, mas até onde vi, elas podem ser realmente reutilizadas, remixadas, refeitas e tudo mais, mas com duas condições: desde que o trabalho derivado seja identificado como feito a partir do trabalho deles (com os links deles e tudo) e - esta é a melhor parte - desde que o trabalho final seja compartilhado com licença similar ou igual à do trabalho de origem. Resumindo: se eu quiser fazer um filme utilizando as músicas deles na trilha, o meu filme terá de ser compartilhado de forma que seja livre o uso para qualquer pessoa reutiliza-lo, remixa-lo, invertê-lo, usar trechos e tudo mais - desde que me dê o crédito como criador da obra de origem. E por aí vai. Massa, não?
A primeira vez que vi esta licença me senti esquisito, e quase desisti da ideia de usar a música deles. "Deixar meu filme ser reutilizado por qualquer um?? Tá louco??", pensei na hora. Tenho certeza que a maioria dos meus colegas de profissão - senão praticamente todos - dificilmente fariam um filme nestas condições. Mas, ouvindo direto as músicas, passei meses e meses pensando, e a cada momento mais me perguntava "Ué, por que não?". Ah, eu adoraria usar trechos de filmes de cineastas que gosto dentro dos meus trabalhos, se pudesse. Se eu conseguir um dia conseguir fazer um trabalho que toque alguém, que faça alguém se emocionar como eu me emociono com as minhas referências, por que diabos ser tão conservador? Já tinha decidido há mais tempo fazer o máximo de trabalhos em CC, só que só liberando para baixar e distribuir, e vejo agora que liberar um trabalho para reuso é o próximo passo lógico. Sei que não há nada mais clichê do que a frase "Desta vida não levamos nada", mas não consigo pensar numa razão pela qual não liberaria um trabalho cuja genial música só foi possível graças ao "desapego" (muito positivo!) dos músicos da Underscore Orkestra. A ideia de fazer estes filmes parte da música compartilhada dessa forma, então, por que não nos "rendermos" à liberdade de uso de obras artísticas como um todo? Todos adoram baixar filmes gratuitamente, então viva ao CC, que legitima isso e permite ainda mais.
Vejo então que quando mais algo mexe com a gente - conosco, artistas - mais devemos ir atrás desse algo, mas devemos utiliza-lo a nosso favor - não como inimigo, mas como parceiro, como uma máquina que nos transportará à tempos ainda melhores e mais justos, à realizações artísticas impensáveis no nosso mundinho, na nossa "zona de conforto" artística da qual ficamos tão dependentes. Arte, pra mim, é isso: risco, medo, teste, rascunho, tentativa e erro. Um grande e poderoso "E se...". Se isso tocar o outro, o fizer pensar, agir e seguir adiante emocionando pessoas, as fazendo melhores, as incentivando, levando-as a dar o melhor de si - como eu me sinto ao ver todos estes trabalhos fantásticos - acho que o nosso trabalho foi feito. Mais do que nunca, em frente! :)
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
Estudo animado: mais liberdade e menos frescura
Já há algum tempo, ao postar coisas como desenhos e fotos aqui no blog - boa parte, por sinal, já feitos no iPhone - pensei comigo mesmo; "Ué, se posso fazer desenhos e fotos sem compromisso, apenas como estudo, treino ou mesmo pelo simples prazer de fazer, por que não posso fazer o mesmo com animações?".
Longe de querer ser mais um fã cego da Apple, tenho que reconhecer pelo menos uma coisa em Steve Jobs: o homem sabia mesmo como criar coisas que tornam nossas vidas e nossas atividades não só mais simples, mas como nos deixam mais próximos daquilo que realmente queremos fazer, e nos permite fazer ainda mais e melhor. Com o advento do iPhone (e, logicamente, dos bons aplicativos feitos para ele), fica muito mais fácil fazer estes "esboços animados", isto é, pequenas animações que, longe de serem curtas finalizados, são simplesmente manifestações criativas livres de propósito, criadas espontaneamente e - o melhor - em qualquer lugar e sob as mais diversas circunstâncias. Sem precisar criar uma infinidade de pastas, nomear centenas de arquivos, definir formatos e compressões chatíssimas, enfim, travar uma batalha com uma tranqueira de coisas - sejam no universo físico como no digital - , posso desenvolver possibilidades praticamente sem esforço, usando apenas a energia criativa inicial que nos incendeia quando temos uma ideia.
Aqui no estúdio tenho toneladas de teste de animação feitos (sejam fotografados, escaneados ou diretamente digitais, mas ainda finalizados em computador desktop), alguns feitos sempre ao começar projetos, outros que nunca foram iniciados mas deixados de lado e outros que até que ficaram interessantes, mas sabe Deus onde foram parar, nesses gigabytes que deixamos sumir entre DVD's gravados e HD externos lotados. O fato que ocorre é que desenvolver testes livres interessantes e tê-los sistematizados como eu teria desenhos numa pasta - ou mesmo encontrar todos e postar - era algo quase impensável pra mim. A própria ideia aliás, de compartilhar na rede estes testes era algo que eu ainda não pensava - sua natureza crua demais parecia longe da "polidez" que um trabalho finalizado "exige". Hoje, totalmente através do próprio iPhone, animo (utilizando o aliás excelente software ArtStudio), finalizo um pequeno vídeo, posto diretamente para o Vimeo e voilá! Está pronto e no ar. Mais sem frescura do que isso, só dois disso. Posso criar meus estudos e posta-los, que, ao mesmo tempo que os compartilho, os mantenho como registro do trabalho, dos pensamentos e ideias tidos ao decorrer do tempo.
Quando digo "sem frescura" quero dizer eliminando diversos processos, sem etapas que acabem me distanciando da empolgação e vontade que, acredito, sempre estão no começo de qualquer criação artística, mas que nem sempre chegam ao final. Ao fazer estes estudos, tudo é tão rápido e intuitivo que, antes de pensar, já fiz algumas dezenas de frames e algo que me parece interessante já se delineia. Claro, continuarei fazendo trabalho mais complexos, que necessariamente envolvem mais aspectos técnicos para uma conclusão interessante, mas confesso que criar assim, tão solto, é irresistível, delicioso, instigante e viciante. Não posso deixar de pensar: porque não fazer trabalhos "pra valer" desta forma? Por que todo trabalho animado precisa necessariamente de semanas, meses, até anos produzindo? Por que não posso fazer um trabalho interessante de uma tacada só, em alguns dias (ou até algumas horas) sem processos complexos, sem tantas etapas a serem seguidas, sem um "manual" de produção a ser percorrido? Me incomoda muito, inclusive, que muitos dos meus colegas não consigam ver o cinema de animação além destas fronteiras - o vêem apenas como uma indústria, com uma fórmula a ser seguida para se conquistar um "mercado". As abordagens - sejam técnicas, temáticas ou conceituais - são apenas repetidas, nunca questionadas ou aprimoradas.
Neste momento devo estar conduzindo cerca de uns vinte outros estudos animados, alguns prontos, outros no meio e outros bem no início, todos criados direto no iPhone. Tem de tudo, de linhas mais soltas como este até alguns testes em animação sobre fotos e rotoscopia. Todos livres, sem compromisso com mais nada a não ser deixar a coisa fluir sem restrições. Só em poder criar em qualquer lugar - fila do banco, no táxi, na espera do médico ou até na cama antes de dormir (minha opção preferida, por sinal) - já é um bálsamo. Há tempos penso em maneiras de como "dessacralizar" os aspectos técnicos de sempre de se criar animações, e esta possibilidade é um prato cheio.
Para finalizar, gosto de lembrar das palavras de Norman McLaren que, há quase 70 anos atrás, ao falar do processo de animação feito diretamente na película 35mm, o citava como sendo algo que aproximava o realizador do filme, tal qual o pintor de sua tela - não há intermédiários, apenas ele a lidar diretamente com sua obra, ao passo que na animação, são inúmeros os processos técnicos e operacionais envolvido da criação ao filme finalizado. McLaren hoje com certeza ficaria empolgadíssimo como estas novas possibilidades, e sinto que seu espírito permanece mais vivo do que nunca em todos os realizadores que exploram as possibilidades sempre infinitas que a arte animar oferece. Está tudo aí, à nossa disposição, mais acessível e palpável do que nunca. Vamos em frente.
sexta-feira, 25 de junho de 2010
Individualismo ou trabalho autoral?
De uns tempos pra cá tenho começado a ver que este blog tem sido cada vez mais quase como um diário; meus trabalhos e projetos que vou compartilhando aqui sempre trazem um pouco do momento vivido, em que acontecem, e também das minhas impressões sobre cada coisa e seus aspectos. Nessa linha, posto algo em que tenho pensado e refletido muito sobre, uma inquietação.
Foi outro dia, numa roda de conversa entre colegas animadores e ilustradores, que chegamos no clássico tópico de se constituir uma equipe pra fazer um filme, que alguém soltou a clássica frase: "não dá pra fazer animação sozinho!". Sempre que ouço isso, me incomodo. Será mesmo que não dá pra se criar um filme de animação sozinho? Aliás, qual a definição de ser fazer algo "sozinho"? Uma afirmação dessas, pra começar, pressupõe a também "clássica" noção de produção industrial, subdividida e hierarquizada, no qual se acredita que a qualidade final da obra é diretamente proporcional ao número de profissionais envolvidos, ou seja, quantos mais, melhor. Bom, talvez eu esteja sendo irônico; se defende pelo menos um certo número de profissionais especializados em certas áreas, constituindo uma equipe mais ou menos equilibrada. Eu reconheço que pensamentos similares a este padrão de produção já foram responsáveis por criar muito filmes geniais e continuarão fazendo-o, mas há de se perceber que não existe só essa maneira. Engraçado que sempre que se fala sobre isso num grupo (onde normamente todos pensam assim) apenas fico calado, retruco só nos meus pensamentos, mas penso muito em numa próxima vez levantar a mão e comentar - ou relembrar (ou até mesmo introduzir) que um outro mundo é possível. Uma visão mais autoral de um trabalho, um personal statement, como se diz em alguns livros, é constituído de uma visão muito particular sobre algo, a questão mesmo da eterna busca de um artista. O fato é que se construiu com os anos essa imagem da produção de grande escala de estúdio como única forma possível de criação de animação, e são relativamente poucos animadores hoje que tem no meio uma porta para expressar seus sentimentos mais pessoais, usando para isso artifícios - técnicas e variações inéditas de técnicas - de uma maneira muito particular. A subversão do estabelecido está na base de todas as obras que põe o meio para a frente, que fazem a arte fazer realmente as pessoas pensarem, refletirem sobre suas vidas. Na imagem acima, o já lendário Norman McLaren, mestre do cinema de animação experimental e artista que tinha ainda mais do que uma visão autoral; possuía um sentimento de inquietude que se faz presente em toda a sua obra, uma espécie de sede de criação que nunca se sacia, uma "insatisfação" que terminou por criar, desenvolver e sedimentar muitas das inovações artísticas e tecnológicas do meio, além de ter criado obras que emocionam até hoje e se tornam ainda melhores com o tempo. Para fechar - e esperando que este não se torne um daqueles blogs de postagens pseudo-intelectuais e pessoais intermináveis - posto o prefácio escrito pelo animador e cineasta de animação George Griffin para a edição de 1978 do livro The Animation Book, o qual falei sobre na postagem passada:
Um novo método de se fazer animação tem sobrevoado a última década e com ele uma nova geração de artistas que usam o meio primeiramente para sua expressão pessoal. Os novos animadores assumem direta responsabilidade sobre quase todo aspecto do processo de realização: concepção, desenho, filmagem e até mesmo a construção do suporte de câmera. Esta reivindicação da autoridade criativa contrasta contrasta nitidamente com o sistema de produção impessoal de 'linha de montagem' de estúdios da indústria de desenhos animados e retorna a animação para o seu impulso original experimental, como encarnado no trabalho de Windsor McCay, Emile Cohl, Hans Richter e Oskar Fischinger.
É isso. Em frente :)
Marcadores:
Animação Experimental,
Cinema de Animação,
Historinhas,
Inquietações,
Mestres,
Processo de criação,
Questionamentos,
Referências,
Reflexões
Assinar:
Postagens (Atom)

